 encontro a alguém.
Fortes mãos agarraram-lhe os ombros e, por um
momento, Sansa pensou que era o pai, mas, quando
se virou, foi a face queimada de Sandor Clegane que
encontrou olhando-a de cima, com a boca torcida
num terrível simulacro de sorriso.
- Está tremendo, menina! - disse ele, com voz
áspera. - Assusto-a tanto assim?
Assustava, e assustava desde que ela pusera pela
primeira vez os olhos na ruína em que o fogo
transformara seu rosto, embora agora lhe parecesse
que não causava nem metade do terror daquela vez.
Mesmo assim, Sansa desviou-se para longe dele. O
Cão de Caça soltou uma gargalhada, e Lady
interpôs-se entre ambos, rugindo um aviso. Sansa
caiu de joelhos e enrolou os braços em torno da loba.
As pessoas reuniram-se em volta dela, de boca
aberta. Sansa sentia os olhos postos nela, e aqui e ali
ouvia comentários murmurados e farrapos de risos.
"Um lobo", disse um homem, e alguém ecoou "Pelos
sete infernos, isto é um lobo gigante" e o primeiro
homem perguntou "Que faz ele no acampamento?" e
a voz áspera do Cão de Caça replicou: "Os Stark
usam-nos como amas de leite" e Sansa compreendeu
que os dois cavaleiros desconhecidos olhavam para
ela e para Lady, com as espadas nas mãos, e então
ficou novamente assustada e envergonhada.
Lágrimas encheram-lhe os olhos.
Ouviu a rainha dizer:
- Joffrey, vá falar com ela.
E ali estava seu príncipe.
- Deixem-na em paz - disse Joffrey. Erguia-se acima
dela, belo em sua lã azul e couro negro, com os
caracóis dourados brilhando ao sol como uma coroa.
Ofereceu-lhe a mão e a ajudou a ficar em pé. - Que se
passa, querida senhora? Por que tanto medo?
Ninguém lhe fará mal. Guardem as espadas, todos. O
lobo é seu animal de estimação, não passa disso -
olhou para Sandor Clegane: - E você, cão,
desapareça daqui, está assustando minha prometida.
Cão de Caça, sempre fiel, fez uma vénia e esgueirou-
se em silêncio através da multidão. Sansa lutou por
firmar-se. Sentia-se tão pateta. Era uma Stark de
Winterfell, uma senhora nobre, e um dia seria uma
rainha.
- Não foi ele, meu querido príncipe - ela tentou
explicar. - Foi o outro.
Os dois cavaleiros desconhecidos trocaram um olhar.
- Payne? - disse com um risinho abafado o homem
mais novo, da armadura verde. O homem mais velho
vestido de branco falou gentilmente a Sansa.
- Por vezes, Sor Ilyn também me assusta, querida
senhora. Tem um aspecto temível.
- E assim deve ser - a rainha descera da casa
rolante. Os espectadores afastaram-se a fim de lhe
abrir caminho. - Se os malvados não temerem o
Magistrado do Rei, isso quer dizer que o homem
errado está no cargo.
Sansa finalmente encontrou o que dizer:
- Então, com certeza Vossa Graça encontrou o
homem certo - ela terminou o que dizia e uma rajada
de gargalhadas explodiu à sua volta.
- Bem dito, menina - disse o velho de branco, - Como
é próprio de uma filha de Eddard Stark. Estou
honrado por conhecê-la, por mais irregular que
tenha sido o modo como nos encontramos. Sou Sor
Barristan Selmy, da Guarda Real - o homem lhe fez
uma reverência.
Sansa conhecia o nome, e agora as cortesias que
Septã Mordane lhe ensinara ao longo dos anos
vinham-lhe à memória.
- O Senhor Comandante da Guarda Real - disse - e
conselheiro do nosso rei Robert, e antes dele de
Aerys Targaryen, A honra é minha, bom cavaleiro.
Mesmo no longínquo Norte, os cantores gabam os
feitos de Barristan, o Ousado.
O cavaleiro verde riu novamente.
- Barristan, o Usado, a senhora quer dizer. Não o
lisonjeie com tanta doçura, criança, pois eleja tem
uma opinião grande demais de si próprio - e sorriu-
lhe. - E agora, menina-lobo, se conseguir também
encontrar um nome para mim, então terei de
reconhecer que é, sim, filha da nossa Mão.
Joffrey empertigou-se a seu lado.
- Tenha cuidado com o modo como se dirige à minha
prometida.
- Eu posso responder - disse Sansa depressa para
aquietar a ira de seu príncipe. Sorriu para o
cavaleiro verde. - Seu capacete tem chifres dourados,
senhor. O veado é o selo da Casa Real. O rei Robert
tem dois irmãos. Por sua extrema juventude, só pode
ser Renly Baratheon, senhor de Ponta Tempestade e
conselheiro do rei, e assim o nomeio.
Sor Barristan soltou um risinho.
- Pela sua extrema juventude, só pode ser um
arrogante empinado, e é assim que o nomeio eu.
Ouviu-se gargalhada geral, liderada pelo próprio
Lorde Renly. A tensão de momentos antes tinha
desaparecido, e Sansa começava a se sentir
confortável... até que Sor Ilyn Payne abriu caminho
entre dois homens à força de seu ombro e surgiu à
sua frente, sem sorrir. Não disse uma palavra. Lady
mostrou os dentes e começou a rosnar, um rugido
baixo cheio de ameaças, mas desta vez Sansa
silenciou a loba passando suavemente sua mão na
cabeça dela.
- Lamento se o ofendi, Sor Ilyn - disse.
Esperou por uma resposta, mas nenhuma veio.
Enquanto o executor a olhava, seus olhos claros sem
cor pareciam despi-la, inclusive a pele, deixando-lhe
a alma nua à sua frente, Ainda em silêncio, o homem
se virou e foi embora.
Sansa não compreendeu. Olhou para seu príncipe